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Skinner e Simone

Feminismo e behaviorismo radical. Um diálogo possível?

Skinner e Simone 

Texto por Diagna Meneghetti Fronza

A análise do comportamento tem um grande potencial para tratar de questões sociais, como o feminismo. Entretanto, esse potencial permanece inexplorado. Isso se deve, em grande parte, à má compreensão da abordagem behaviorista: toma-se Watson como representante do Behaviorismo Radical. Assim, diante da abordagem reducionista e mecanicista watsoniana, que vê o organismo como um sujeito passivo, alega-se a incompatibilidade do comportamentalismo com o estudo de fenômenos sociais, como o feminismo.

Porém, a visão antiessencialista e multidimensional de ser humano observada no modelo de seleção pelas consequências de Skinner apresenta pontos em comum com a distinção entre sexo e gênero proposta por Simone de Beauvoir (1908 – 1986), uma das principais teses feministas.

Segundo Beauvoir, o sexo corresponde ao corpo biológico de um indivíduo. O gênero, por outro lado, remete aos estereótipos e papeis sociais atribuídos a homens e a mulheres em uma sociedade, que são aprendidos pelo indivíduo. Portanto, enquanto o sexo é natural, o gênero é um constructo social. Beauvoir apresenta ainda a noção de identidade de gênero, que é construída através de interações sociais dentro de um contexto cultural, e corresponde à forma como o indivíduo vê a si mesmo.

No modelo de seleção pelas consequências, Skinner aponta três dimensões que compõem o ser humano, baseadas nos três níveis de seleção (filogenia, ontogenia e cultura): organismo, pessoa e self. O organismo refere-se à configuração anatomofisiológica e aos comportamentos respondentes adquiridos através da seleção natural. A pessoa corresponde ao organismo, às identidades atribuídas por outros, e ao repertório operante adquirido ao longo da vida do indivíduo. Por fim, o self é a capacidade do indivíduo de discriminar os próprios comportamentos, i.e., comportar-se em relação a si mesmo. Isso é possível através de um repertório verbal providenciado pela cultura.

Um paralelo pode ser traçado entre os termos de Beauvoir e Skinner. O corpo, em Beauvoir, corresponde ao organismo, em Skinner (dimensão biológica e natural); o gênero designa a pessoa (padrões comportamentais aprendidos); e a identidade de gênero equivale ao self (forma como o indivíduo comporta-se em relação a si mesmo).

Para ambos os autores, as questões de gênero e identidade de gênero não podem ser explicadas pela filogênese. Devem ser analisadas e compreendidas a nível ontogenético e cultural, onde foram construídas ao longo da história.

Assim, a posição social de inferioridade da mulher não é natural. Nos dias atuais, ela é mantida por práticas culturais opressoras selecionadas no decorrer da história humana. Mas a contingência estabelecedora de um comportamento pode não ser a mesma que o mantém. Dessa forma, as contingências que mantêm o patriarcado nos dias atuais podem não corresponder àquelas que o estabeleceram.

A análise do comportamento possui as ferramentas necessárias para identificar e modificar as práticas culturais opressoras que mantêm vivo esse sistema na atualidade. Cabe às/aos suas/seus adeptas/os expandir as pesquisas nessa área, de forma a contribuir para a luta pela igualdade entre os gêneros.

Para uma expansão da compreensão do feminismo sob olhar da análise do comportamento, recomendamos a leitura de Silva & Laurenti (2016).

 

Referência

Silva, E. C. & Laurenti, C. (2016). B. F. Skinner e Simone de Beauvoir: “A mulher” à luz do modelo de seleção pelas consequências. Revista Perspectivas em Análise do Comportamento, 7(2), 197-211.

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